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Especialistas norte-americanos abordam parceria estratégica EUA-Angola destacando a visita de Joe Biden

O impacto da visita de Joe Biden a Angola, bem como o reforço da cooperação entre os Estados Unidos da América e Angola, tem gerado muito agrado no seio de especialistas norte-americanos em política externa e economia – que afirmam se tratar de uma “grande visão da Administração Biden”, que trará bons frutos para os dois países, daí a justificação da deslocação do próprio Presidente dos EUA visando “ver de perto” a dimensão dos investimentos feitos. Essa análise foi feita em Washington D.C., por especialistas da Atlantic Council.

A recente visita do Presidente Biden a Angola e o lançamento do Corredor do Lobito marcam um momento crucial na política externa dos EUA, sinalizando uma mudança de ajuda para investimentos em África. Especialistas do Atlantic Council, um think tank de Washington, D.C., analisam o impacto desse projecto e suas implicações para a relação entre os EUA e o continente africano. Entre eles estão Benjamin Mossberg, Joseph Lemoine, Alexandria J. Maloney, William Tobin e Alexander Tripp, que discutem essas questões relevantes.

Nos últimos anos, a África tem se tornado um foco crescente para as potências globais, especialmente em um contexto de competição geopolítica acirrada. A visita de Biden a Angola, acompanhada pelo lançamento do Corredor do Lobito, simboliza uma nova abordagem da política externa dos EUA, que busca priorizar investimentos em detrimento da ajuda tradicional.

Especialistas do Atlantic Council – uma instituição de pesquisa e think tank com sede em Washington, D.C., criada em 1961, focada em questões de política externa e segurança nacional – como Benjamin Mossberg, Joseph Lemoine, Alexandria J. Maloney, William Tobin e Alexander Tripp analisam ao referido think tank, quando se aproximava a data da visita, o impacto desse projecto e as implicações para a relação entre os EUA e o continente africano. 

Benjamin Mossberg entende que a visita de Biden não apenas destaca a importância de Angola como parceiro estratégico, mas também sinaliza um compromisso renovado dos EUA em apoiar iniciativas que promovam a estabilidade económica e a governança.

O Corredor do Lobito, um projecto ferroviário que conecta a República Democrática do Congo e a Zâmbia ao porto de Lobito em Angola, é visto como um exemplo emblemático dessa nova estratégia.

Joseph Lemoine aponta que os investimentos dos EUA, incluindo um empréstimo significativo para a Lobito Atlantic Railway, têm o potencial de gerar um impacto económico local significativo, além de melhorar a infraestrutura regional.

Essa iniciativa é uma demonstração clara de que os EUA estão prontos para competir com a influência crescente da China em África, conforme observado por Alexandria J. Maloney, que destaca a necessidade de uma resposta estratégica à presença chinesa.

No entanto, a tarefa de os EUA se afirmarem como parceiros económicos preferenciais em África não é simples. William Tobin alerta que, apesar dos avanços, os EUA ainda precisam desenvolver uma estratégia robusta que permita que empresas americanas competam em pé de igualdade com as chinesas, que têm investido pesadamente na região.

O analista observa que o Corredor do Lobito é um passo importante, mas deve ser apenas o começo de um compromisso mais amplo e sustentável.

Alexander Tripp conclui que a presença dos EUA em África, particularmente no contexto do Corredor do Lobito, é vital para contrabalançar a crescente influência chinesa.

Argumenta que, enquanto os EUA fazem progressos, é fundamental que continuem a investir em projectos de infraestrutura e em relações bilaterais que beneficiem as economias locais.

Com a população africana prevista para representar 25% da população mundial até 2050, a importância estratégica do continente não pode ser subestimada.

A nova era de investimentos dos EUA em África, simbolizada pelo Corredor do Lobito, representa uma mudança significativa na estratégia americana, focando em parcerias que promovem crescimento económico e estabilidade.

Os especialistas da Atlantic Council alertam que, embora os avanços sejam encorajadores, é essencial que os EUA mantenham um compromisso contínuo e ampliem sua presença no continente para garantir um futuro próspero e equilibrado.

Viagem de Biden mostra sucesso das reformas em Angola

Benjamin Mossberg, vice-director do Atlantic Council’s Africa Center, observou que a primeira viagem de Biden à África, ocorrendo a apenas a menos de trinta dias do fim de seu mandato, destaca o momento positivo que Angola está vivendo.

Ressaltou que as narrativas históricas sobre o País, que incluem um passado marcado pelo colonialismo português, uma longa guerra civil e quase quatro décadas de ditadura sob José Eduardo dos Santos, assim considera o analista, geralmente têm um tom negativo.

No entanto, com a eleição de João Lourenço em 2017, Angola tem se empenhado em implementar reformas económicas visando aumentar a estabilidade macroeconómica, fortalecer a governança do sector público e atrair investimento estrangeiro directo.

Para Mossberg, a visita de um Presidente dos EUA a Angola simboliza uma mudança nesta narrativa, evidenciando que o País está focado no futuro.

Mossberg recordou sua participação na visita de Brian Nelson, subsecretário do Departamento do Tesouro dos EUA, a Angola em Março de 2022, onde pôde testemunhar o impacto das reformas em primeira mão.

Destacou que, internamente, Angola tem avançado na implementação de medidas para combater a corrupção, a lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo. 

Externamente, o País tem colaborado com países vizinhos e parceiros internacionais para melhorar a assistência mútua e a coordenação.

Esses esforços, segundo Mossberg, têm enviado uma mensagem clara ao sector privado: Angola está aberta para negócios. Enfatizou que, sem as reformas, os projectos que Biden está prestes a visitar, como os do Corredor do Lobito e do sector de telecomunicações, não seriam viáveis.

Mossberg acredita que esses sinais positivos devem ser mantidos e que agências de classificação de risco e instituições financeiras devem olhar para Angola como uma oportunidade para integrar o País no sistema financeiro global.

Também ressaltou a importância de as agências do governo dos EUA continuarem a colaborar com as autoridades angolanas para fortalecer a capacidade do País de combater a corrupção e incentivar investimentos de empresas americanas.

Para ele, a visita de um Presidente dos EUA em exercício é uma confirmação do compromisso dos EUA com o futuro de Angola.

Mudança de foco: da ajuda para o investimento

Joseph Lemoine, director sénior do Freedom and Prosperity Center do Atlantic Council, comentou sobre a importância da colaboração com nações africanas, destacando que isso é vital para os interesses económicos e de segurança nacional dos EUA.

Observou que essa colaboração deve ser equilibrada com a promoção da paz, da estabilidade e de um futuro económico mais promissor no continente.

Lemoine realçou que a demanda por minerais críticos, como cobre, cobalto e lítio, está crescendo, impulsionada por seu papel essencial em electrónicos e tecnologias de energia verde.

Argumentou que, devido às suas abundantes reservas, a África está se tornando um ponto focal para os esforços dos EUA para garantir esses recursos.

Lemoine destacou que a viagem de Biden a Luanda, Angola, sua primeira visita oficial à África Subsaariana, representa um momento significativo em sua presidência.

Explicou que essa visita é uma resposta à crescente competição entre os EUA e a China no continente, onde Pequim já domina muitos sectores de mineração.

O encontro de Biden com o Presidente Lourenço, segundo Lemoine, visa reafirmar os laços bilaterais e avançar o projecto do Corredor do Lobito.

Esta iniciativa, lançada em 2023 como parceria entre os EUA, a União Europeia e outras entidades africanas, tem como objectivo conectar a Zâmbia e a República Democrática do Congo ao Porto de Lobito por meio de uma ferrovia.

Lemoine mencionou que mais de 3 mil milhões US$ já foram mobilizados para esse projecto, considerado um passo inicial em direcção a uma nova ferrovia transcontinental.

O Corredor do Lobito, de acordo com Lemoine, é emblemático da Parceria para Infraestrutura e Investimento Global (PGII), que reformulou a iniciativa “Build Back Better World” de Biden.

Afirmou que o PGII oferece uma oportunidade para fortalecer as relações entre os EUA e a África, mudando o foco da ajuda para o investimento e estimulando o comércio e o financiamento privado para gerar crescimento económico.

Lemoine também observou que essa iniciativa serve como um contraponto aos projectos de infraestrutura da China na região, que investiu mais de 12 mil milhões US$ em Angola na última década.

Lemoine concluiu que, à medida que o novo Presidente Donald Trump se prepara para assumir, é imperativo sustentar o investimento no Corredor do Lobito, pois isso fortalece o comércio EUA-África, promove o desenvolvimento econÓmico local e combate a influência da China.

Trump deveria antecipar a necessidade do envolvimento dos EUA em África

Alexandria J. Maloney, pesquisadora sénior não residente do Centro África do Atlantic Council, afirmou que uma política externa produtiva dos EUA em relação à África sob a administração Trump deveria focar em relacionamentos e investimentos, que se alinhassem com os interesses estratégicos e comerciais dos EUA.

A analista destacou que a recente viagem de Biden reforça a importância geopolítica crescente de Angola como uma potência regional e parceira-chave na diversificação da cadeia de suprimentos global, especialmente em relação a minerais críticos essenciais para as tecnologias actuais.

Segundo Maloney, Angola tem se mostrado uma parceira estratégica de primeira linha para os EUA, por meio de iniciativas de infraestrutura como o projecto multimilionário do Corredor do Lobito, que conta com o apoio da União Europeia.

Maloney observou que, dada a postura de “América em primeiro lugar” de Trump, é provável que haja uma mudança em direcção a programas bilaterais, como os promovidos pelo Prosper Africa e pelo Export-Import Bank dos EUA.

Ela ressaltou que o governo Trump deve antecipar a necessidade de um maior envolvimento dos EUA em África, especialmente em resposta à crescente influência da China no continente. 

Com a expansão do grupo BRICS, as nações do Sul Global estão consolidando laços económicos, apesar de interesses rivais, o que pode aprofundar as relações económicas entre os países BRICS na África e aumentar a competição com os mercados americanos.

A pesquisadora também sugeriu que a política dos EUA em relação à ajuda humanitária deveria ser reformulada para um modelo mais “autossuficiente” para as nações africanas, reduzindo os compromissos financeiros dos EUA com a ajuda externa.

Maloney previu que, sob o novo governo Trump, os esforços antiterrorismo no Sahel e no Chifre de África devem enfatizar o combate ao extremismo por meio de canais militares e diplomáticos.

Maloney concluiu que, se o governo Trump realmente se preocupa com a segurança, o comércio e o avanço dos interesses económicos de longo prazo dos EUA, deve considerar um envolvimento estratégico significativo e investimentos com nações africanas. 

EUA podem proporcionar os tipos certos de investimento

William Tobin, director assistente do Atlantic Council Global Energy Center, defendeu que o governo Biden tem ressaltado a importância de priorizar o investimento em vez da ajuda, focando na diplomacia comercial com as nações africanas.

Destacou que a visita de Biden a Angola não apenas cumpre uma promessa feita durante a Cúpula de Líderes EUA-África de 2022, mas também oferece uma oportunidade de demonstrar que os EUA são capazes de estabelecer o tipo de relacionamento que os líderes africanos desejam.

Tobin afirmou que esse relacionamento deve incluir investimentos que ajudem a fechar a lacuna de infraestrutura em África, estimada em cerca de 100 mil milhões US$ pela Comissão EconÓmica das Nações Unidas para a África.

O especialista mencionou a Estratégia dos EUA para a África Subsaariana, lançada pela Casa Branca em 2022, que articulou o objectivo de promover a prosperidade partilhada e alavancar o melhor do sector privado americano.

Em sua visita a Angola, Biden terá a chance de demonstrar como os EUA podem participar desse modelo, especialmente por meio do Corredor do Lobito, um projecto ferroviário público-privado que conecta a República Democrática do Congo e a Zâmbia ao porto de Lobito.

Tobin destacou que os EUA já apoiaram esse projecto com um empréstimo de 553 milhões US$ para a Lobito Atlantic Railway e 250 milhões US$ para a Africa Finance Corporation.

O pesquisador observou que esses investimentos, juntamente com contribuições de parceiros como a União Europeia e o Banco Africano de Desenvolvimento, bem como do sector privado, conseguiram alavancar mais de 4 mil milhões US$ em financiamento.

No entanto, Tobin argumentou que os EUA precisam fazer mais para se afirmar como o parceiro económico preferido para governos e empresas africanas que carecem de capital.

Ele analisou que é fundamental que os EUA elaborem uma estratégia que permita que seu sector privado compete em pé de igualdade com as empresas chinesas no continente.

Desde o lançamento da Iniciativa Cinturão e Rota em 2013, a China superou os EUA em novos investimentos estrangeiros directos em África. Tobin concluiu que o Corredor do Lobito, com o Porto do Lobito, representa uma esperança de que os EUA possam melhorar seus laços económicos com o continente.

EUA podem superar a China em África, mas precisam de o fazer com mais frequência

Alexander Tripp, director assistente do Centro Africano do Atlantic Council, observou que a recente viagem de Biden à África, embora tardia, não deve ser vista como uma prioridade nas preocupações da política externa dos EUA.

Comentou que a viagem, que já estava atrasada desde Outubro, corre o risco de ser apenas uma tentativa de cumprir uma promessa feita há cerca de vinte e quatro meses.

No entanto, Tripp destacou que, em um nível estratégico, o Corredor do Lobito representa uma vitória significativa para o governo Biden e para os EUA, dada a histórica falta de alinhamento de Angola com os EUA, especialmente em virtude dos legados da Guerra Fria.

Explicou que Angola, tradicionalmente, buscou parcerias com a China para infraestrutura e com a Rússia para armamentos. Assim, a decisão de Angola de colaborar com os Estados Unidos, em vez da China ou da Rússia, é um desenvolvimento notável.

Tripp atribuiu essa mudança à estratégia do governo Biden, que não aborda as relações com nações africanas sob a óptica da competição entre grandes potências.

Tripp sublinha que essa mudança representa um sucesso importante para os EUA, uma vez que a China tem dominado acordos de infraestrutura no continente.

Alertou que a ausência dos EUA abre espaço para a influência chinesa, que não só traz oportunidades económicas, mas também potenciais ameaças estratégicas. Citou o exemplo do megaporto de Chancay, no Peru, como uma ilustração de como a presença económica da China pode se transformar em poder militar.

O Corredor do Lobito, segundo Tripp, vai além de ser uma simples linha ferroviária; é um passo em direcção a um importante porto comercial global.

Destacou que o interesse da China em África excede amplamente o dos EUA, citando a construção da primeira base militar ultramarina da China em Djibouti e os rumores sobre a busca de uma base no Atlântico.

Tripp afirmou que, embora o Corredor do Lobito represente um controlo temporário sobre a expansão da influência chinesa, é apenas um projecto em um continente vasto e populoso.

Concluiu que, para ser verdadeiramente bem-sucedido, o Corredor do Lobito deve ser o primeiro de muitos investimentos dos EUA em África, assinalando a necessidade de uma presença mais frequente e significativa dos EUA no continente.

Para além disso, Tripp considerou que, com a retirada das tropas da UE e dos EUA no Sahel e a substituição por forças russas, o Corredor do Lobito é uma vitória muito necessária para a presença americana em África.

Créditos©Empwene & DR

Fonte: angolaeconomico.com

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