A quem interessa um possível “fracasso político” de Abel Chivukuvuku?
Nos últimos dias, voltou ao debate público um vídeo antigo envolvendo alegações em torno da famosa “caixa térmica”, acompanhado de uma avalanche de ataques nas redes sociais contra Abel Chivukuvuku. O mais curioso é perceber como determinados sectores políticos e os seus activistas digitais mudam de discurso conforme as conveniências do momento.
O vídeo em causa não é novo. Circulou intensamente nas vésperas das eleições de 2022, numa altura em que Abel Chivukuvuku integrava a Frente Patriótica Unida e ocupava uma posição de destaque na lista eleitoral da UNITA. Naquele período, as mesmas vozes que hoje o condenam defendiam com firmeza que tudo não passava de uma campanha de manipulação para desacreditar a oposição.
Na altura, dizia-se que os ataques eram fabricados pelo MPLA. Dizia-se igualmente que existiam manobras para impedir a legalização do PRA-JA junto do Tribunal Constitucional. Abel era tratado como símbolo da resistência democrática e peça fundamental para a alternância política.
Depois da legalização do PRA-JA, Abel Chivukuvuku passou a assumir uma posição mais autónoma, defendendo os interesses do seu projecto político e recusando a ideia de dissolução da sua identidade partidária em nome de uma agenda única da oposição.
E foi precisamente aí que começaram os ataques mais intensos.
A questão que se impõe é simples: se ontem o vídeo era considerado manipulação política, o que mudou hoje para passar a ser tratado como verdade absoluta?
Infelizmente, começa a consolidar-se em certos sectores da oposição angolana uma cultura de intolerância política preocupante. Há quem acredite que apenas uma força política tem legitimidade para representar o povo, como se milhões de angolanos fossem obrigados a escolher apenas entre dois caminhos.
Há cidadãos que não se reveem no MPLA, e há igualmente cidadãos que também não se reveem na UNITA.
Esses angolanos têm o direito legítimo de procurar alternativas políticas sem serem tratados como traidores, infiltrados ou inimigos da mudança.
A democracia não pode funcionar na lógica do pensamento único. Não pode existir uma oposição onde todos são obrigados a pensar da mesma forma, seguir a mesma cartilha e submeter-se ao mesmo centro de poder político.
A tentativa constante de dividir Angola entre “bons” e “maus”, entre “patriotas” e “vendidos”, entre “puros” e “inimigos”, é extremamente perigosa para a estabilidade democrática do país. O discurso do ódio político pode produzir aplausos momentâneos nas redes sociais, mas fragiliza a convivência nacional e destrói pontes entre angolanos.
Defender a democracia implica aceitar a divergência. Implica reconhecer que nenhum partido tem exclusividade sobre o patriotismo, sobre o sofrimento do povo ou sobre o sonho da alternância.
Entretanto, no fim do dia, a pergunta permanece: a quem interessa a “morte” política de Abel Chivukuvuku?
Certamente não interessa aos angolanos que defendem uma democracia plural, aberta e tolerante. Porque numa verdadeira democracia, a existência de várias alternativas políticas fortalece o debate e amplia as opções do eleitorado.
A fragilização de Abel interessa, sobretudo, àqueles que têm medo da concorrência política dentro da própria oposição. Interessa aos que desejam monopolizar a representação do descontentamento popular. Interessa aos que entendem a democracia apenas como disputa pelo poder, e não como convivência entre diferentes visões de país.
Porque quem acredita verdadeiramente na democracia não teme vozes diferentes. Teme, sim, o pensamento único.
Talvez esteja justamente aí o maior desafio da nossa maturidade política: aprender a conviver com a diferença sem transformar adversários em inimigos.
