O acesso ao crédito rural está a impulsionar a produção agrícola, no presente ciclo produtivo, na província da Huíla, no seio dos agricultores locais, segundo constatou, no último fim-de-semana, a equipa de reportagem do Jornal de Angola.
Este financiamento está a permitir transformar pequenas explorações familiares em negócios sustentáveis e geradores de emprego. No município da Palanca, produtores locais já operam com os créditos obtidos sistemas modernos de irrigação e culturas de elevado valor comercial, num cenário que revela o peso crescente da agricultura na dinamização da economia rural.
O exemplo concreto é do agricultor Eduardo Matendi, 58 anos, dono da Fazenda Eduardo, que recebeu um financiamento de 15 milhões de kwanzas e que foram aplicados na aquisição de sementes melhoradas, equipamentos e sistemas de irrigação.
Com oito hectares irrigados nas margens do rio Unene, a fazenda produz batata-rena, milho, feijão, cebola, tomate e cenoura, com a utilização de técnicas de irrigação por indução e aspersão para aumentar a produtividade.
Na campanha agrícola 2024/2025, 1,8 hectare de batata-rena rendeu cerca de 10 toneladas, indicador que demonstra o potencial económico da produção intensiva em áreas relativamente reduzidas.
Do total produzido, cinco toneladas foram comercializadas, o que permitiu ao agricultor Eduardo Matendi amortizar cerca de dois milhões de kwanzas do crédito obtido.
Os números mostram uma mudança gradual no perfil da agricultura local. As culturas tradicionais de baixa rentabilidade começam a ceder espaço para produtos de maior valor comercial, sobretudo a cebola destinada à produção de sementes, cujo preço no mercado pode variar entre 20 mil e 30 mil kwanzas por quilograma.
A equipa de reportagem do Jornal de Angola constatou, também, que a expansão da actividade agrícola é sustentada igualmente pelo trabalho da cooperativa Cwam Angola, que reúne 1.488 produtores distribuídos em cinco municípios da província da Huíla. A cooperativa funciona como intermediária no acesso ao financiamento do Fundo de Apoio ao Desenvolvimento Agrário (FADA).
O crédito agrícola, aliado à assistência técnica, surge como um dos principais instrumentos para aumentar a produção nacional, reduzir a importação de bens alimentares e fortalecer a segurança alimentar, numa altura em que Angola continua dependente de bens agrícolas vindos do exterior. Além do impacto directo na produção, o sector começa a gerar empregos permanentes e sazonais nas comunidades rurais.
Só a fazenda de Eduardo Matendi emprega actualmente oito trabalhadores fixos e dezenas de sazonais durante os períodos de campanha e colheita, o que tem contribuído para a circulação de renda local e redução do desemprego.
O crescimento da actividade agrícola também atrai uma nova geração de produtores, como é o caso do jovem Albano Júnior, de 27 anos, que abandonou o comércio informal para investir na produção de milho e cebola, cultura que pode alcançar até 30 toneladas por hectare em condições favoráveis.
Apesar do crescimento produtivo, os agricultores locais continuam a enfrentar dificuldades estruturais que limitam o potencial económico do sector. A falta de transporte próprio, os elevados custos logísticos, ausência de centros de armazenamento e conservação, bem como a volatilidade dos preços nos mercados reduzem a margem de lucro dos produtores.

